
Nunca tive problemas em me adaptar aqui. A minha curiosidade por um jeito diferente se ser e de viver era tão imensa que se sobrepôs a qualquer estranheza.
A minha escolha por esta iha veio após uma viagem de dois meses, mochileira. Oriunda de Amsterdã, via Bélgica e França, atravessei o Canal da Mancha e, ao avistar os penhascos de Dover, soube que tinha de ser. Não acredito em destino, mas minha alma determinou que teria de ser e foi. Dois anos depois, de aflição contínua.
Muitos anos passaram. E a minha entrada no mundo balzaquiano foi aqui, muitos ritos de passagem aqui tiveram lugar. A multitude do que aprendi e intuí neste auto-exílio não permitem que eu jamais exclua esta parte do mundo do que chamo de "minha vida". Não é o meu lar, mas é uma casa de quem sou íntima, como aquela da melhor amiga, da tia solteirona. Conheço as regras, as manias, os defeitos, as virtudes, os atalhos, o que é intransponível. Mesmo que parta - e quero - o calor (raro) e a umidade vão comigo, a luz e a sua ausência.
Não me aculturei, mas não posso dizer que sou a mesma. Percebo muito isso, quando vou ao Brasil. Ainda tenho alguns maneirismos sociais (não todos) e as emoções - principalmente - tupiniquins, mas nalgum lugar houve um shift irreversível. Porque quis, não porque o "primeiro mundo" é melhor, mas porque sempre desejei que o meu espírito tivesse um quê de caleidoscópio do melhor e do pior de outras realidades. Porque há coisas aqui com as quais sinto-me mais confortável, porque, relativamente, tenho mais liberdade de ir e vir. Porque a vida é única e ligeira, não vou eu hastear bandeiras no quintal e cair na ilusão da soberania cultural, geopolítica ou econômica. O que amo no lugar onde nasci é a sua gente, a cultura, as paisagens e a luz que nelas incide, não a sua instituição. E, dentro de tudo isso que citei, tenho algumas rusgas, aspectos com os quais jamais me identifiquei e que me são completamente estrangeiros. Sempre senti-me, de certa forma, exilada em casa, e isso permanece. Mas finalmente, agora, quando vou, sinto-me em casa novamente.
E há á língua. Não sou purista. Não acredito em ditaduras idiomáticas. Estou aqui, passo os anos a ler, falar e me comunicar nesta língua anglo-saxônica, que não é a minha primeira, mas tornou-se a minha segunda e domina o meu cotidiano, e me encanta em vários contextos. Leia Shakespeare, por exemplo, no original. E leia o parágrafo anterior. Pois é. Jamais serei britânica - ou o quis ser - ou tão fluente no inglês como sou no português, mas não consigo retirar o english vocabulary do meu, nem as suas ordenações da minha síntaxe. Meto o português no inglês também. Só quem assim vive, entende, só quem nunca se fechou nas suas origens percebe. Não é "frescura", é natural.
E, no meio desta ambiguidade que já desisti de resolver (pois não interfere, de forma alguma, no meu sentido mais profundo de identidade), entram as raízes portuguesas. Que foram outra surpresa nesta minha jornada de expatriada.
A minha primeira vez em Portugal foi estranha, tive a impressão de estar num Brasil onírico, em que tudo é o que é mas não o é ao mesmo tempo. Some isso a uns calor médio de 40 graus e a uma perda profunda e inesperada, e não sobra qualquer possibilidade de alento. Não sabia o que sentir, porque o geográfico não estava em pauta, a não ser na necessidade de um bilhete de volta.
Mas um dia retornei, a uma localidade que desconhecia. E, como em Dover, veio o chamado. Um sentimento de familiaridade e urgência, da abertura de um novo capítulo. Novamente, dois anos mais tarde, aportei. E percebi que a ilha tinha ficado para trás, que já tinha cumprido a sua função, que seria sempre parte do que sou, mas que não poderia ser o destino. No meu novo Porto, outras facetas, confortos e desconfortos apresentaram-se; senti mais uma vez os aromas do tempo e da cozinha da avó trasmontana, saboreei as delícias dos novos usos da língua. O mar e a morte, a mãe e a ponte entre as cidades. Novamente, devido a "uma perda profunda e inesperada", tive de partir, voltar. À ilha.
Já se vão mais de dois anos desse retorno. Aceitei-o, porque houve uma série de prazeres, saudades e conveniências, e ainda não se apresentaram as condições para romper com este que tem sido, até então, o maior dos exílios. Porque não é espontâneo. É anacrônico: uma permanência no tempo incorreto, repetido, que quase nada mais acrescenta. Um círculo foi fechado, mas nele ando a dar voltas.
Cada vez que chego ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a sensação é de, literalmente, desapertar o pause. De retomar um capítulo ainda não encerrado, suspenso. Às vezes vejo-me perplexa por lá não estar, pega-me de surpresa durante o dia. Parece anti-natural, violento, como os exílios de ditadura.
O Porto revelou-se também como parte de mim, como porto.

(maio, 2008, todos os direitos de reprodução reservados)