Sunday, 8 November 2009

Das partes do eu que parte


Nunca tive problemas em me adaptar aqui. A minha curiosidade por um jeito diferente se ser e de viver era tão imensa que se sobrepôs a qualquer estranheza.
A minha escolha por esta iha veio após uma viagem de dois meses, mochileira. Oriunda de Amsterdã, via Bélgica e França, atravessei o Canal da Mancha e, ao avistar os penhascos de Dover, soube que tinha de ser. Não acredito em destino, mas minha alma determinou que teria de ser e foi. Dois anos depois, de aflição contínua.
Muitos anos passaram. E a minha entrada no mundo balzaquiano foi aqui, muitos ritos de passagem aqui tiveram lugar. A multitude do que aprendi e intuí neste auto-exílio não permitem que eu jamais exclua esta parte do mundo do que chamo de "minha vida". Não é o meu lar, mas é uma casa de quem sou íntima, como aquela da melhor amiga, da tia solteirona. Conheço as regras, as manias, os defeitos, as virtudes, os atalhos, o que é intransponível. Mesmo que parta - e quero - o calor (raro) e a umidade vão comigo, a luz e a sua ausência.
Não me aculturei, mas não posso dizer que sou a mesma. Percebo muito isso, quando vou ao Brasil. Ainda tenho alguns maneirismos sociais (não todos) e as emoções - principalmente - tupiniquins, mas nalgum lugar houve um shift irreversível. Porque quis, não porque o "primeiro mundo" é melhor, mas porque sempre desejei que o meu espírito tivesse um quê de caleidoscópio do melhor e do pior de outras realidades. Porque há coisas aqui com as quais sinto-me mais confortável, porque, relativamente, tenho mais liberdade de ir e vir. Porque a vida é única e ligeira, não vou eu hastear bandeiras no quintal e cair na ilusão da soberania cultural, geopolítica ou econômica. O que amo no lugar onde nasci é a sua gente, a cultura, as paisagens e a luz que nelas incide, não a sua instituição. E, dentro de tudo isso que citei, tenho algumas rusgas, aspectos com os quais jamais me identifiquei e que me são completamente estrangeiros. Sempre senti-me, de certa forma, exilada em casa, e isso permanece. Mas finalmente, agora, quando vou, sinto-me em casa novamente.
E há á língua. Não sou purista. Não acredito em ditaduras idiomáticas. Estou aqui, passo os anos a ler, falar e me comunicar nesta língua anglo-saxônica, que não é a minha primeira, mas tornou-se a minha segunda e domina o meu cotidiano, e me encanta em vários contextos. Leia Shakespeare, por exemplo, no original. E leia o parágrafo anterior. Pois é. Jamais serei britânica - ou o quis ser - ou tão fluente no inglês como sou no português, mas não consigo retirar o english vocabulary do meu, nem as suas ordenações da minha síntaxe. Meto o português no inglês também. Só quem assim vive, entende, só quem nunca se fechou nas suas origens percebe. Não é "frescura", é natural.
E, no meio desta ambiguidade que já desisti de resolver (pois não interfere, de forma alguma, no meu sentido mais profundo de identidade), entram as raízes portuguesas. Que foram outra surpresa nesta minha jornada de expatriada.
A minha primeira vez em Portugal foi estranha, tive a impressão de estar num Brasil onírico, em que tudo é o que é mas não o é ao mesmo tempo. Some isso a uns calor médio de 40 graus e a uma perda profunda e inesperada, e não sobra qualquer possibilidade de alento. Não sabia o que sentir, porque o geográfico não estava em pauta, a não ser na necessidade de um bilhete de volta.
Mas um dia retornei, a uma localidade que desconhecia. E, como em Dover, veio o chamado. Um sentimento de familiaridade e urgência, da abertura de um novo capítulo. Novamente, dois anos mais tarde, aportei. E percebi que a ilha tinha ficado para trás, que já tinha cumprido a sua função, que seria sempre parte do que sou, mas que não poderia ser o destino. No meu novo Porto, outras facetas, confortos e desconfortos apresentaram-se; senti mais uma vez os aromas do tempo e da cozinha da avó trasmontana, saboreei as delícias dos novos usos da língua. O mar e a morte, a mãe e a ponte entre as cidades. Novamente, devido a "uma perda profunda e inesperada", tive de partir, voltar. À ilha.
Já se vão mais de dois anos desse retorno. Aceitei-o, porque houve uma série de prazeres, saudades e conveniências, e ainda não se apresentaram as condições para romper com este que tem sido, até então, o maior dos exílios. Porque não é espontâneo. É anacrônico: uma permanência no tempo incorreto, repetido, que quase nada mais acrescenta. Um círculo foi fechado, mas nele ando a dar voltas.
Cada vez que chego ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a sensação é de, literalmente, desapertar o pause. De retomar um capítulo ainda não encerrado, suspenso. Às vezes vejo-me perplexa por lá não estar, pega-me de surpresa durante o dia. Parece anti-natural, violento, como os exílios de ditadura.
O Porto revelou-se também como parte de mim, como porto.

(maio, 2008, todos os direitos de reprodução reservados)

Saturday, 7 November 2009

A estate in London, through a child's eyes


Os [council]estates britânicos são o mainstream marginalizado. Versão "primeiromundista" do BNH. Todos aqueles que não são ricos querem, mas não aspiram, morar num estate.
Porque é barato, mas não dá status.
Porque há um sentimento simultâneo de comunidade e de gueto.
Porque, circunstancialmente, a violência explode.
Porque ali há estudantes, refugiados, imigrantes, famílias working class e chavs, asilados políticos.
Os estates são a representação mais próxima que já vi de uma Torre de Babel.
Algumas crianças adoram os estates e suas áreas de convívio gramadas e playgrounds: cartões postais da sua infância, cenário de amizades que prosseguem por uma vida inteira.
Uma exposição de fotos, tiradas pelos miúdos, da escola Kingsmead's em Hackney, leste londrino, no Victoria & Albert Museum of Childhood.
Sair de um estate para uma moradia maior, num bairro classe média, é um rito de passagem social.

Friday, 6 November 2009

The nonplace and the urban realm

Ou "O não-lugar e o Reino Urbano" (tradução livre)

" 'Non-place urban realm\' was a term bandied around by American urban geographers of the 1970s to describe the city of the future in which motor car-based personal mobility would make place-of-residence immaterial. In this model of society, we would operate within a network of personal and business contacts in which spatial relationships are relatively unimportant." (In: Parole)
(...)
"Suburban has become a metaphor for bland, characterless places that are neither urban nor rural, lacking the facilities of the inner city, but not quite achieving the tranquillity of the countryside." (Ibid)

"Webber's [Melvin M.] 1964 paper Urban Place and the Non-Place Urban Realm[1] set the terms for much of his later work and introduced the idea of 'community without propinquity': cities that were clusters of settlements with the urban realm of its occupants being determined by social links and economic networks in a 'Non-Place Urban Realm'." (In: Wikipedia)
(...)
He was later involved in the development of public transport, apparently regretting the car-focussed implications of his early work, though his theories are as applicable to transport planning as a car based approach to urbanism." (Ibid)

(tradução livre)
" 'O Reino Urbano do Não-lugar" foi um termo que circulou entre geógrafos urbanos estadunidenses nos anos 70, descrevendo a a cidade do futuro, em que a mobilidade pessoal baseada no uso automotivo tornaria imaterial a idéia do local de residência. Neste modelo de sociedade, operaríamos dentro de uma rede de contatos pessoais e de negócios em que as relações espaciais são, relativamente, pouco importantes."
(...)
" 'Suburbano' tornou-se uma metáfora para lugares insossos, sem personalidade, que não são nem urbanos nem rurais, desprovidos das comodidades citadinas sem também conseguir alcançar a tranquilidade do campo."

"Em 'O Lugar Urbano e o Reino Urbano do Não-Lugar'(1964), Webber [Melvin M.] determinou os termos posteriores de grande parte da sua obra, e apresentou a idéia de 'comunidade sem proximidade': cidades de aglomerados habitacionais, com o reino urbano dos seus ocupantes sendo determinado por laços sociais e redes econômicas num 'Reino Urbano do Não-lugar'."
(...)
"Ele [Webber] mais tarde esteve envolvido em projetos de desenvolvimento de transportes públicos, aparentemente arrependido da importância dada ao uso de carros no seu trabalho anterior, embora as suas teorias sejam aplicáveis tanto ao planejamento de transporte como à abordagem urbanista que se baseia no uso automotivo".

Monday, 2 November 2009

Mais do mesmo


Como disse, o outono andava gentilíssimo, mas ontem resolveu mostrar as garras e os seus ventos congelantes, e não é que hoje acordamos com céus azuis e aquela luz macia tão típica desta época? Pelo tom anil, sei que calor não está. Mas não há do que reclamar ainda (vamos ver o quanto demora para a chegada real da primavera...), pois outubro foi melhor do que costuma ser.
Gosto muito desta calma que tem o ar nos dias ensolarados e moderadamente frios. Só os passarinhos é que andam agitadíssimos aos finais das tardes, as árvores se parecem mais com rodoviárias à véspera de feriado. E daí, quando vou distraída, vejo-os a emigrar em bandos. Sinto uma certa inveja, confesso.
No mais, o fim de semana foi de leituras, domesticidades e Vicky Christina Barcelona (adorável!), mais Supernatural e In Treatment. No sábado, fomos caminhar por um bairro vizinho e descobrimos que se trata de uma vila praticamente intocada pela febre da homogeinização urbana. Até igreja do século 18 e casa de vigário há, acreditem. Uma agradável surpresa, foi com adentrar uma dimensão mágica.
Na sexta, fui à capital para uma conferência, cappuccini descafeinados no café da National Art Gallery, papo delicioso e caminhada por Covent Garden com a minha nerd predileta, e a Brixton para recarregar o estoque de brasileirices: dois pacotes de polvilho aezdo, biscoitos de polvilho e de banana e canela, azeite de dendê, batata palha e doce de leite.
Sinto [muita] falta da capital e das suas possibilidades. Não do centro e do tube lotado e desumano, dos atrasos do transporte público, da pretensão de quem vive no meio desse burburinho constante (eu não vivia). Mas, sim, do Sul, da vida contida no bairro de fachadas coloridas e que tem de tudo, onde moram as minhas amigas, e há sempre alguma coisa a fazer e nos distrair. I miss South London, badly. Esta vida de bolha suburbana e pré-fabricada não é para mim.